por Luciana Romagnolli
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“A Festa”. |
Por que você faz teatro? Talvez a pergunta que mais lhe diga respeito seja: por que você vai ao teatro? E talvez a resposta se assemelhe à minha. Para tomar consciência de si. Para reelaborar modos de apreender/perceber o mundo. Para viver uma experiência de afetação do corpo/mente. Para viver uma conjunção com outros seres igualmente vivos. Para se sentir vivo.
Obviamente essas respostas não cabem só a mim. São uma ambição de uma fatia imensa de criadores cuja relação com o teatro passa igualmente pela valorização da presença e do presente, desemperrando uma engrenagem antiga que perde seu lugar no mundo contemporâneo quando gira em falso no engessamento da relação com o espectador.
Digo isso, e o faço em primeira pessoa, para dar testemunho da experiência de afetação que foi estar na plateia de “A Festa”, nesta noite, no Teatro Novelas Curitibanas, diante das atrizes do grupo paulista Opovoempé. E mais: faço-o ainda de coração desritmado pelos movimentos cardíacos e cerebrais que o espetáculo acelerou em mim. Com o perdão da pessoalidade.
A pressa com que as atrizes recebem o público é o primeiro comando de uma encenação cadenciada nas falas, movimentos e sonoridades, de modo que replique o caos ordenado da passagem do tempo como é percebida por nós. Para que a interatividade almejada se instaure, o grupo seduz pouco a pouco o espectador a comprometer-se com o espetáculo, com sua história de vida e sua consciência do agora.
São acionados elementos genuinamente pessoais, como a quantidade de dias que se viveu e o nome da parente mais velha que se conheceu. Essas recordações não se limitam à interpelação de um ou outro espectador tampouco se esvaem no vazio, como tantas vezes ocorre em espetáculos em que a pergunta é evidentemente mais importante do que a resposta. São informações que se tornam coletivas e são retomadas adiante preenchendo a dramaturgia, de modo a mobilizarem individualmente dentro de uma sensação de conjunto.
A matéria do espetáculo, afinal, é o tempo e a vida: o tempo de vida de cada um. Portanto, é individual e intransferível, tanto quanto condição comum e incontornável a todos.
Em falas e gestos lançados em direção à plateia, como coletivo ou individualmente, as atrizes e um ator manejam impressões, constatações, provocações relativas à experiência temporal, às noções de passado e futuro e ao modo como se gasta o próprio tempo. Isto é, vive-se. Despertam, assim, a consciência da morte e da existência, das perdas e dos possíveis, num (novamente) caos ordenado que ora acelera o pensamento, ora o bloqueia, em estímulos ambíguos de clareza e confusão.
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“A Festa”. Foto de Guilherme Sanchez. |
Ao espectador, é solicitado um trabalho mental e emocional crescente, do qual dependerá sua fruição e sua experiência. Ele é o elemento central na dramaturgia. É a base para os jogos e associações lançados em múltiplas abordagens (matemática, imagética, cotidiana, ancestral, animal etc), que se somam na compreensão racional ou não do que se propõe. O grupo trabalha num nível de precisão e objetivismo em que cada indício é estopim de um insight ou se conecta a outro(s) para reconfigurar a percepção do ser no tempo. Isso se dá a partir das soluções mais simples, tendo como suporte principal um único objeto empregado de diversas maneiras: pratos.
Com eles, se experiencia a incansável repetição do agora. E se entrevê duas realidades separadas somente pelo tempo: a afirmação inexorável da presença/vida e sua inevitável superação. “Você está aqui”. “Você esteve aqui”. “A Festa” faz do palco espaço comum de celebração do estar vivo.
* Espetáculo visto no 22º Festival de Curitiba, em 29 de março de 2013.